19 de setembro de 2017

INVISÍVEL


Não sei se me enxerga 
Assisto você se vestir
Já vi muitas vezes
Conheço cada detalhe 
Seu corpo
Gosto de ver como
Ajeita com as mãos
O cabelo


Noites e noites juntos
Você me toca
Me acende
Te ilumino
Sem contudo te ofuscar
Você me usa
Pega um livro
Invejo o deslizar de seus dedos
Sobre as páginas
E a ânsia por devorar
A história
Queria me transpor


Adormece
Como se eu nada fosse
Passo a noite em claro
Velo teu sono 
Escuto tua respiração
Quero ser ar


Acorda sorrindo 
Me olha
Acho que é pra mim
Me apaga
Assopra uma vela 


Levanta correndo
Se apronta
Naturalmente 
Vai
Sem sequer se despedir


Dor
Nem um carinho
Penso em desistir
A noite te verei novamente
Adoro sua companhia
Objeto ao seu dispor
Me sinto invisível


Assim 
Levo a vida
Na expectativa
De um novo toque
De me conformar 
Entender que sou
Um simples abajur


9 de janeiro de 2017

UM LUGAR CHAMADO SURICATO

UM ENCONTRO COM A LOU(CURA)

“Bem-vindos ao encontro da cidade com a loucura!” - Esta frase abriu a noite. 

Estávamos sentados no quintal, na parte de trás da casa. Mesas e cadeiras de madeira espalhadas, uma pequena árvore e algumas plantas nos cercavam. Lâmpadas penduradas atravessavam por cima de nossas cabeças. O ambiente lembrava uma quermesse de cidade pequena. Um pequeno palco exibia uma banda multicultural, uma francesa, um polonês, um brasileiro, e outros, com instrumentos de sopro, de corda, sanfona, tambores e voz, enchiam o ambiente de uma alegria emocionante. A noite estava clara e linda.

A frase de abertura ficava pipocando na cabeça. Como assim, eles se identificam como loucos? Tá certo que o lugar funciona pelo trabalho de “loucos” em recuperação, ou ex-loucos, não sei muito bem como funcionam estas definições. Afinal, quem determina quem é louco ou não? Até aí tudo bem, mas, quem é o louco que se identifica como tal? Não queremos todos ser normais? Se o lugar parece em tudo com um lugar normal, porque eles insistem em proclamar sua loucura?

Os quartos da casa, que serve de passagem para o quintal, são exposições de arte com objetos confeccionados por “loucos” de outras unidades. Um dos quartos exibia uma exposição inspirada em Alice Através do Espelho. Vários espelhos, de diferentes formatos e tamanhos, com molduras coloridas de mosaicos, estavam espalhados em todas as alturas das paredes. Para onde olhávamos, o que víamos era nosso próprio reflexo. Quem são estes “malucos”, que insistem em encarar sua imagem frente a frente, em qualquer direção que olhem? Não lhes assusta se enxergar?

Então um desafio é proposto. Vamos encontrar quem são os loucos daqui. Será que aquele que tem um tique e pisca várias vezes franzindo a testa? Ou talvez a moça com os braços marcados? E aquela na parede com o olhar atento a tudo que ocorre? Será que eles esconderam todos na cozinha pra gente não ver? Ah! Aquele cara que foi para casa, porque não deu conta de trabalhar hoje. Acho que os que ficam brincando de quebra-cabeças com pequenos pedaços de vidro colorido, ou os obcecados por encaixes perfeitos nos móveis que faz. Quem sabe eu, que não consigo me olhar no espelho e enxergar quem realmente sou?

Naquela casa, cada um faz o que tem habilidade em fazer. Sabem seus limites e, por respeito próprio, não os ultrapassam. Trabalham em comunidade. Fazem suas reuniões para pôr ordem nas coisas. Têm discussões e reconciliações. Conversam, sorriem e, com certeza, também choram.

Na entrada da casa havia um poema estampado na parede, mas que só vimos ao sair. Incrível! Ele faz muito mais sentido quando lido na saída. Se chama: A cor verde
“Nesse verde (que é escolha, ato-discurso-criação)
me reconheço corpo, cor, chão
Me encontro feito seiva que percorre perene e infinita _Respiro_
Nessa casa me provejo
Não há estrutura que me afaste do que sou
(Me aceito)
Tijolo por tijolo me faço, suspendo, [me] construo
Nessa casa verde eu sou tantos, e tudo há em mim, imerso, forte, total
Essa casa verde, árvore, folha, poema, canção, abriga a minha natureza. “
Foi uma experiência especial. Algumas vezes, tive que enxugar os olhos, que insistiam em suar. Talvez fosse o calor da noite ou, talvez, o calor dos corações. Eram “loucos” atendendo loucos! E aí, pude entender a frase de abertura. Ali, realmente, a cidade pode encontrar a loucura, a sua própria.

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Este texto foi construído após uma visita ao bar do centro cultural Suricato.

Sobre a Associação Suricato:

O Suricato funciona como espaço de produção cultural construído de forma coletiva por usuários do sistema de saúde mental.

A luta por uma sociedade sem manicômios possibilitou o tratamento em liberdade. Isso norteou a organização de um coletivo rumo à conquista do trabalho pleno de sentido e significado.

A Associação possui 4 (quatro) núcleos de produção, a saber: Costura, Culinária, Marcenaria e Mosaico. O empreendimento conta também com o Espaço Cultural Suricato, onde a equipe de vendas é responsável pela comercialização dos produtos.

Espaço Cultural Suricato: R. Souza Bastos, 175 - Floresta, Belo Horizonte - MG - Telefone: (31) 2526-5367

Página da associação: