20 de julho de 2018

DES ENCONTRO


Hoje, me despeço de mim!

- Mas como assim?
- Você vai embora?

Sim. Vou embora de mim!
Vou embora do que eu era,
Do que já não sou mais.
Vou embora da cabeça que era minha,
Das pernas que me levavam,
Do caminho que eu andava.

- Mas pra onde você vai?

Já disse. Vou embora de mim!
Vou onde meus pés me levarem.

- Mas até hoje eles te traziam aqui.
- E agora?

Agora não sei. Vou ver,
Mas vou embora de mim.

- Vai sair feito um louco?
- Sem saber onde vai?

Meus olhos são bons.
Eles vão encontrar a direção.
Devo confiar mais neles.
Talvez eles enxerguem
Algo que eu ainda não veja.

- E você vai segui-los assim?
- Cegamente?

Claro,
Não te disse que vou embora de mim?

- E o que você vai encontrar quando for?

O que vou encontrar, eu não sei
Mas sei quem...

Vou encontrar comigo.

Mas hoje...

Hoje eu vou embora de mim!

21 de maio de 2018

SÃO SOMENTE ARTES E OFÍCIOS ?

O MUSEU



Entramos na estação de trem. Eu de mãos dadas com meu pai. Não me lembro muito bem que dia foi, se é que podemos falar de tempo nesta viagem. O lugar é lindo e parece familiar. Começamos a andar em direção a plataforma. Um senhor com trajes formais nos pede as passagens e passamos pela roleta. Tudo muito limpo e bem cuidado. Parece uma daquelas estações de trem que vemos nos filmes em partidas cheias de emoção.

Começamos a andar pela plataforma quando meus olhos brilham ao ver algo. Uma banca de madeira, com várias divisões, expõe muitos tipos de guloseimas. Chego perto e salivo ao ver as cores e sentir os aromas. Uma moça de sorriso doce, por trás da banca, me olha e pergunta de qual eu gosto. Não sei nem escolher. Meu pai lhe entrega umas moedas e pego o mais colorido de todos. Era rosa e se chamava creme holandês. Ela sorri e grita: doces, cocadas, guloseimas. São muitas pessoas passando.

Andamos mais um pouco e pergunto ao meu pai o que estamos fazendo ali. Ele me diz que vamos viajar. Um trem passa, mas não é o nosso; é de minério. Fico boquiaberto com o tamanho e o barulho. Pergunto o que é aquilo e ouço a história de como homens com várias ferramentas diferentes cavam, moem e tiram da terra o minério. Ainda sem entender muito bem pergunto para quê. Ele me diz que o minério é colocado em um tipo de forno muito quente e que vira um líquido amarelo avermelhado que, quando esfria, vira ferro. E, enquanto está esfriando, um homem com um martelo vai batendo até dar um formato naquele ferro. Fico meio sem acreditar e ele me mostra um senhor com um macacão bem sujo, diz que aquele é um dos homens que trabalha com o minério, e que o trilho do trem um dia foi aquele pó escuro que o trem carregava. Pergunto de forma ingênua quantas marteladas precisa para fazer a estrada de ferro. Meu pai sorri sem responder e continuamos andando.

Mais à frente, uma caixa de madeira em forma de cubo com um bico sanfonado se ergue sobre 3 pernas e aponta para pessoas que sorriem. Meu pai pergunta se sei o que é aquilo. Olho com uma cara intrigada e ele me conta a história de quando era criança, no interior de Minas. Um dia, um senhor chegou a sua cidade com uma caixa igual àquela e perguntou a ele se podia tirar uma foto sua. Papai disse que sim. Tinha visto algumas fotos na vida, e se achou muito importante em ser fotografado. O senhor ajeitou sua roupa o assentou em uma cadeira e enfiou a cabeça por baixo de um pano que ficava atrás da caixa. Disse a ele que voltasse no dia seguinte para buscar sua foto. Quando meu pai chegou em casa, contou para sua mãe o que tinha acontecido. Ela disse para não acreditar naquilo, que o moço tinha feito uma brincadeira e que não haveria nenhuma foto. Meu pai era criança e, como tal, acreditava no sonho de ter uma foto sua. No dia seguinte voltou e recebeu sua foto em um envelope. Ainda sem acreditar, correu para casa e mostrou a sua mãe com um brilho nos olhos de quem havia acreditado que sonhos se realizam. Ele lembra até hoje o nome do senhor que tirou sua foto.

Sentamos em um dos bancos e uma menina parou a nossa frente. Para mim parecia um anjo. Tinha um vestido azul claro com uns pedaços brancos que eram cheios de voltinhas e formavam pequenas flores. Eu não sabia se me hipnotizava com seus olhos ou com as voltinhas das partes brancas de seu vestido. Meu pai me vendo em estado catatônico me balançou e disse que uma de suas tias fazia aquelas partes brancas do vestido, e que se chamava renda. A tia tinha uma almofada que parecia um rolo mais grosso e que com linhas e uns palitinhos ia trançando até formarem aqueles desenhos do vestido. Não sei muito bem o que me fez memorizar esta história, mas lembro até hoje daqueles olhos.

Como o trem demorava, fomos até o café. Por baixo do balcão conseguia ver um homem girando uma grande lata preta em cima do fogo de lenha. Gritou que estava bom, tirou a lata de cima do fogo, abriu uma portinha da lata e várias sementes pretas caíram em uma outra lata. O lugar ficou com um cheiro delicioso. Pegou um pouco daquelas sementes, colocou em uma máquina e começou a girar uma manivela. Perguntei ao meu pai o que era e ele disse: “café”. Achei aquilo lindo. Nunca tinha visto café que não fosse um líquido preto. O moço havia torrado o café no fogo e depois moído para que pudesse ser transformado na bebida negra que eu conhecia. Acho que foi o melhor café da minha vida.

Quis saber porque estávamos viajando. Respondeu que era por causa do trabalho. Perguntei qual era seu trabalho e me disse que era engenheiro, que construía casas. Perguntei como. Me explicou desde a fabricação dos tijolos de barro até a colocação das telhas que também eram de barro. Começa e acaba com barro amassado e queimado, e que muitas pessoas faziam cada uma das peças que compõe uma casa. “Então todo mundo trabalha? ”, disse curioso. Respondeu que a maioria das pessoas trabalha e que fazem muitas coisas diferentes. Me contou do vovô, que fazia peças que podiam consertar quase qualquer tipo de máquina. Ele pegava pedaços de ferro e ia cortando, furando, soldando e no final tinha uma peça igual à que tinha se estragado. Fazia isso em uma oficina com tornos, serras, furadeiras e brocas, ferro de solda e mais um monte de máquinas e aparelhos próprios. Contou que as pessoas saiam de lugares distantes só para conseguir consertar tratores, trens e grandes máquinas na oficina do vovô. Pensei que meu avô poderia construir até um helicóptero nesta oficina.

Nosso trem chega, vem andando lentamente até parar. Subimos no vagão e me assento na janela. Olho para fora e vejo a estação ficando vazia. As pessoas que estavam lá vão sumindo. A vendedora de doces, o moço que tira minério, o rapaz que torra café, a menina do vestido de renda. Todos desaparecem e o trem começa a andar. Não tem ninguém, só coisas. Objetos, ferramentas e construções são o que resta. Um vazio de gente que se viu e que fez. Trabalhou e foi trabalhado!

Nessa estação a viagem é no tempo, vemos histórias e visitamos pedacinhos vividos. O museu é de artes e ofícios, mas com sensibilidade, enxergamos pessoas!

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Este texto foi construído após uma visita ao Museu de Artes e Ofícios.

Museu de Artes e Ofícios - Praça Rui Barbosa 600, Centro, Belo Horizonte - MG - www.mao.org.br