18 de outubro de 2019

TELETRANSPORTE

TELETRANSPORTE

Meu amor 
Aqui, aí e lá 
Como podes 
em tantas partes estar? 
Antes em tempos diversos 
Agora em tempo comum 
E mesmo assim, 
Aqui, aí e lá 
Ocupas um mesmo lugar 
Te amei, te amo e 
Posso te amar 
Aqui, aí e lá


4 de outubro de 2019

DES-ESPERAR

DES-ESPERAR

Ela chegou de leve
Me acariciou as costas
Permiti que entrasse comigo
“prazer, Desesperança”
Disse ela, um pouco acanhada

Achei que vinha para me abater
E até comecei este movimento
Mas ela me parou
Riu na minha cara
tão espontânea
que não pude deixar de escutar
“É isso, é isso, é isso.”
Antecipando o que eu estava
por compreender

Atordoado, perguntei
Então sou livre,
posso viver?
Ela gargalhava!
“É isso, é isso, é isso.”

E se despediu,
“Quando morre a esperança,
nasce você!”
x

1 de julho de 2019

TANGO DA SOLIDÃO


TANGO DA SOLIDÃO

Te vejo chegar
Assim de relance
E meio de longe
Você vem andando
Até se sentar

De frente pra mim
Mas meio de lado
Não perto
Distante
A ponto deu não
Poder te tocar

Me olha e sorri
Me encanto
Me espanto
Que foi esse olhar?

Levanto e resolvo
Sair pra dançar
Você também vem
Mas fica de longe
Depois chega perto
Mas não o possível
Pra eu te tocar

E então se afasta
Aí me aproximo
Escolho o perto
A ponto de então
Poder lhe falar

Mas não era isso
Queria o toque
Dançamos de novo
Você pra lá
Eu pra cá

Escolho ir embora
Queria ficar
E quando me afasto
Pra não te encostar
As mãos se encontram
Num instante
No ar
Se enlaçam se tocam
Até se soltar
Suave e de leve
Querendo abraçar

Me afasto
E te olho
Você pra lá
Eu pra cá


20 de julho de 2018

DES ENCONTRO


DES ENCONTRO

Hoje, me despeço de mim!

- Mas como assim?
- Você vai embora?

Sim. Vou embora de mim!
Vou embora do que eu era,
Do que já não sou mais.
Vou embora da cabeça que era minha,
Das pernas que me levavam,
Do caminho que eu andava.

- Mas pra onde você vai?

Já disse. Vou embora de mim!
Vou onde meus pés me levarem.

- Mas até hoje eles te traziam aqui.
- E agora?

Agora não sei. Vou ver,
Mas vou embora de mim.

- Vai sair feito um louco?
- Sem saber onde vai?

Meus olhos são bons.
Eles vão encontrar a direção.
Devo confiar mais neles.
Talvez eles enxerguem
Algo que eu ainda não veja.

- E você vai segui-los assim?
- Cegamente?

Claro,
Não te disse que vou embora de mim?

- E o que você vai encontrar quando for?

O que vou encontrar, eu não sei
Mas sei quem...

Vou encontrar comigo.

Mas hoje...

Hoje eu vou embora de mim!

21 de maio de 2018

SÃO SOMENTE ARTES E OFÍCIOS ?

O MUSEU



Entramos na estação de trem. Eu de mãos dadas com meu pai. Não me lembro muito bem que dia foi, se é que podemos falar de tempo nesta viagem. O lugar é lindo e parece familiar. Começamos a andar em direção a plataforma. Um senhor com trajes formais nos pede as passagens e passamos pela roleta. Tudo muito limpo e bem cuidado. Parece uma daquelas estações de trem que vemos nos filmes em partidas cheias de emoção.

Começamos a andar pela plataforma quando meus olhos brilham ao ver algo. Uma banca de madeira, com várias divisões, expõe muitos tipos de guloseimas. Chego perto e salivo ao ver as cores e sentir os aromas. Uma moça de sorriso doce, por trás da banca, me olha e pergunta de qual eu gosto. Não sei nem escolher. Meu pai lhe entrega umas moedas e pego o mais colorido de todos. Era rosa e se chamava creme holandês. Ela sorri e grita: doces, cocadas, guloseimas. São muitas pessoas passando.

Andamos mais um pouco e pergunto ao meu pai o que estamos fazendo ali. Ele me diz que vamos viajar. Um trem passa, mas não é o nosso; é de minério. Fico boquiaberto com o tamanho e o barulho. Pergunto o que é aquilo e ouço a história de como homens com várias ferramentas diferentes cavam, moem e tiram da terra o minério. Ainda sem entender muito bem pergunto para quê. Ele me diz que o minério é colocado em um tipo de forno muito quente e que vira um líquido amarelo avermelhado que, quando esfria, vira ferro. E, enquanto está esfriando, um homem com um martelo vai batendo até dar um formato naquele ferro. Fico meio sem acreditar e ele me mostra um senhor com um macacão bem sujo, diz que aquele é um dos homens que trabalha com o minério, e que o trilho do trem um dia foi aquele pó escuro que o trem carregava. Pergunto de forma ingênua quantas marteladas precisa para fazer a estrada de ferro. Meu pai sorri sem responder e continuamos andando.

Mais à frente, uma caixa de madeira em forma de cubo com um bico sanfonado se ergue sobre 3 pernas e aponta para pessoas que sorriem. Meu pai pergunta se sei o que é aquilo. Olho com uma cara intrigada e ele me conta a história de quando era criança, no interior de Minas. Um dia, um senhor chegou a sua cidade com uma caixa igual àquela e perguntou a ele se podia tirar uma foto sua. Papai disse que sim. Tinha visto algumas fotos na vida, e se achou muito importante em ser fotografado. O senhor ajeitou sua roupa o assentou em uma cadeira e enfiou a cabeça por baixo de um pano que ficava atrás da caixa. Disse a ele que voltasse no dia seguinte para buscar sua foto. Quando meu pai chegou em casa, contou para sua mãe o que tinha acontecido. Ela disse para não acreditar naquilo, que o moço tinha feito uma brincadeira e que não haveria nenhuma foto. Meu pai era criança e, como tal, acreditava no sonho de ter uma foto sua. No dia seguinte voltou e recebeu sua foto em um envelope. Ainda sem acreditar, correu para casa e mostrou a sua mãe com um brilho nos olhos de quem havia acreditado que sonhos se realizam. Ele lembra até hoje o nome do senhor que tirou sua foto.

Sentamos em um dos bancos e uma menina parou a nossa frente. Para mim parecia um anjo. Tinha um vestido azul claro com uns pedaços brancos que eram cheios de voltinhas e formavam pequenas flores. Eu não sabia se me hipnotizava com seus olhos ou com as voltinhas das partes brancas de seu vestido. Meu pai me vendo em estado catatônico me balançou e disse que uma de suas tias fazia aquelas partes brancas do vestido, e que se chamava renda. A tia tinha uma almofada que parecia um rolo mais grosso e que com linhas e uns palitinhos ia trançando até formarem aqueles desenhos do vestido. Não sei muito bem o que me fez memorizar esta história, mas lembro até hoje daqueles olhos.

Como o trem demorava, fomos até o café. Por baixo do balcão conseguia ver um homem girando uma grande lata preta em cima do fogo de lenha. Gritou que estava bom, tirou a lata de cima do fogo, abriu uma portinha da lata e várias sementes pretas caíram em uma outra lata. O lugar ficou com um cheiro delicioso. Pegou um pouco daquelas sementes, colocou em uma máquina e começou a girar uma manivela. Perguntei ao meu pai o que era e ele disse: “café”. Achei aquilo lindo. Nunca tinha visto café que não fosse um líquido preto. O moço havia torrado o café no fogo e depois moído para que pudesse ser transformado na bebida negra que eu conhecia. Acho que foi o melhor café da minha vida.

Quis saber porque estávamos viajando. Respondeu que era por causa do trabalho. Perguntei qual era seu trabalho e me disse que era engenheiro, que construía casas. Perguntei como. Me explicou desde a fabricação dos tijolos de barro até a colocação das telhas que também eram de barro. Começa e acaba com barro amassado e queimado, e que muitas pessoas faziam cada uma das peças que compõe uma casa. “Então todo mundo trabalha? ”, disse curioso. Respondeu que a maioria das pessoas trabalha e que fazem muitas coisas diferentes. Me contou do vovô, que fazia peças que podiam consertar quase qualquer tipo de máquina. Ele pegava pedaços de ferro e ia cortando, furando, soldando e no final tinha uma peça igual à que tinha se estragado. Fazia isso em uma oficina com tornos, serras, furadeiras e brocas, ferro de solda e mais um monte de máquinas e aparelhos próprios. Contou que as pessoas saiam de lugares distantes só para conseguir consertar tratores, trens e grandes máquinas na oficina do vovô. Pensei que meu avô poderia construir até um helicóptero nesta oficina.

Nosso trem chega, vem andando lentamente até parar. Subimos no vagão e me assento na janela. Olho para fora e vejo a estação ficando vazia. As pessoas que estavam lá vão sumindo. A vendedora de doces, o moço que tira minério, o rapaz que torra café, a menina do vestido de renda. Todos desaparecem e o trem começa a andar. Não tem ninguém, só coisas. Objetos, ferramentas e construções são o que resta. Um vazio de gente que se viu e que fez. Trabalhou e foi trabalhado!

Nessa estação a viagem é no tempo, vemos histórias e visitamos pedacinhos vividos. O museu é de artes e ofícios, mas com sensibilidade, enxergamos pessoas!

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Este texto foi construído após uma visita ao Museu de Artes e Ofícios.

Museu de Artes e Ofícios - Praça Rui Barbosa 600, Centro, Belo Horizonte - MG - www.mao.org.br 

19 de setembro de 2017

INVISÍVEL

INVISÍVEL

Não sei se me enxerga 
Assisto você se vestir
Já vi muitas vezes
Conheço cada detalhe 
Seu corpo
Gosto de ver como
Ajeita com as mãos
O cabelo


Noites e noites juntos
Você me toca
Me acende
Te ilumino
Sem contudo te ofuscar
Você me usa
Pega um livro
Invejo o deslizar de seus dedos
Sobre as páginas
E a ânsia por devorar
A história
Queria me transpor


Adormece
Como se eu nada fosse
Passo a noite em claro
Velo teu sono 
Escuto tua respiração
Quero ser ar


Acorda sorrindo 
Me olha
Acho que é pra mim
Me apaga
Assopra uma vela 


Levanta correndo
Se apronta
Naturalmente 
Vai
Sem sequer se despedir


Dor
Nem um carinho
Penso em desistir
A noite te verei novamente
Adoro sua companhia
Objeto ao seu dispor
Me sinto invisível


Assim 
Levo a vida
Na expectativa
De um novo toque
De me conformar 
Entender que sou
Um simples abajur


9 de janeiro de 2017

UM LUGAR CHAMADO SURICATO

UM ENCONTRO COM A LOU(CURA)

“Bem-vindos ao encontro da cidade com a loucura!” - Esta frase abriu a noite. 

Estávamos sentados no quintal, na parte de trás da casa. Mesas e cadeiras de madeira espalhadas, uma pequena árvore e algumas plantas nos cercavam. Lâmpadas penduradas atravessavam por cima de nossas cabeças. O ambiente lembrava uma quermesse de cidade pequena. Um pequeno palco exibia uma banda multicultural, uma francesa, um polonês, um brasileiro, e outros, com instrumentos de sopro, de corda, sanfona, tambores e voz, enchiam o ambiente de uma alegria emocionante. A noite estava clara e linda.

A frase de abertura ficava pipocando na cabeça. Como assim, eles se identificam como loucos? Tá certo que o lugar funciona pelo trabalho de “loucos” em recuperação, ou ex-loucos, não sei muito bem como funcionam estas definições. Afinal, quem determina quem é louco ou não? Até aí tudo bem, mas, quem é o louco que se identifica como tal? Não queremos todos ser normais? Se o lugar parece em tudo com um lugar normal, porque eles insistem em proclamar sua loucura?

Os quartos da casa, que serve de passagem para o quintal, são exposições de arte com objetos confeccionados por “loucos” de outras unidades. Um dos quartos exibia uma exposição inspirada em Alice Através do Espelho. Vários espelhos, de diferentes formatos e tamanhos, com molduras coloridas de mosaicos, estavam espalhados em todas as alturas das paredes. Para onde olhávamos, o que víamos era nosso próprio reflexo. Quem são estes “malucos”, que insistem em encarar sua imagem frente a frente, em qualquer direção que olhem? Não lhes assusta se enxergar?

Então um desafio é proposto. Vamos encontrar quem são os loucos daqui. Será que aquele que tem um tique e pisca várias vezes franzindo a testa? Ou talvez a moça com os braços marcados? E aquela na parede com o olhar atento a tudo que ocorre? Será que eles esconderam todos na cozinha pra gente não ver? Ah! Aquele cara que foi para casa, porque não deu conta de trabalhar hoje. Acho que os que ficam brincando de quebra-cabeças com pequenos pedaços de vidro colorido, ou os obcecados por encaixes perfeitos nos móveis que faz. Quem sabe eu, que não consigo me olhar no espelho e enxergar quem realmente sou?

Naquela casa, cada um faz o que tem habilidade em fazer. Sabem seus limites e, por respeito próprio, não os ultrapassam. Trabalham em comunidade. Fazem suas reuniões para pôr ordem nas coisas. Têm discussões e reconciliações. Conversam, sorriem e, com certeza, também choram.

Na entrada da casa havia um poema estampado na parede, mas que só vimos ao sair. Incrível! Ele faz muito mais sentido quando lido na saída. Se chama: A cor verde
“Nesse verde (que é escolha, ato-discurso-criação)
me reconheço corpo, cor, chão
Me encontro feito seiva que percorre perene e infinita _Respiro_
Nessa casa me provejo
Não há estrutura que me afaste do que sou
(Me aceito)
Tijolo por tijolo me faço, suspendo, [me] construo
Nessa casa verde eu sou tantos, e tudo há em mim, imerso, forte, total
Essa casa verde, árvore, folha, poema, canção, abriga a minha natureza. “
Foi uma experiência especial. Algumas vezes, tive que enxugar os olhos, que insistiam em suar. Talvez fosse o calor da noite ou, talvez, o calor dos corações. Eram “loucos” atendendo loucos! E aí, pude entender a frase de abertura. Ali, realmente, a cidade pode encontrar a loucura, a sua própria.

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Este texto foi construído após uma visita ao bar do centro cultural Suricato.

Sobre a Associação Suricato:

O Suricato funciona como espaço de produção cultural construído de forma coletiva por usuários do sistema de saúde mental.

A luta por uma sociedade sem manicômios possibilitou o tratamento em liberdade. Isso norteou a organização de um coletivo rumo à conquista do trabalho pleno de sentido e significado.

A Associação possui 4 (quatro) núcleos de produção, a saber: Costura, Culinária, Marcenaria e Mosaico. O empreendimento conta também com o Espaço Cultural Suricato, onde a equipe de vendas é responsável pela comercialização dos produtos.

Espaço Cultural Suricato: R. Souza Bastos, 175 - Floresta, Belo Horizonte - MG - Telefone: (31) 2526-5367

Página da associação:

10 de maio de 2016

PARA UMA POESIA ESPECIAL

 
PARA UMA POESIA ESPECIAL

Ela estava assentada no sofá de casa, esperando servir a ceia de natal e ouvindo as conversas de todos ao seu redor. Às vezes, simplesmente escutava; em outras, dava opiniões ou fazia uma piada. De repente, lembrou-se de enviar mensagens de natal para seus amigos mais próximos. Ela não era o tipo de menina que mandava mensagens padrão para todos. Ela escolhia poucos, a dedo, e, para estes, escrevia uma mensagem que vinha da alma.

No burburinho da agitação pré-jantar, ela escrevia uma mensagem, escolhia outra pessoa e iniciava uma nova. Enquanto passava os contatos, seus olhos se ativeram à pequena foto de um grande amigo, do qual havia se distanciado por uma incompatibilidade de momentos de vida. Sentiu saudade e uma vontade imensa de escrever, iniciou a mensagem.

“ Como desejar feliz natal para uma pessoa muito especial?
Não sei! Poesias especiais merecem algo que seja inesquecível, como elas são.
A palavra "poesias", acima, foi escrita como "pessoas", mas o corretor, gentilmente a transformou, e deu a ela o sentido que os olhos as vezes esquecem.
Você é uma poesia especial, que encanta aqueles que tem olhos sensíveis para perceber seus versos, nuances e brilhos. Brilhos de pôr do sol, de lua no mar, de estrela cadente. Brilhos singulares, que não se veem sempre, mas, quando vistos, trazem alegria ao olhar. Poesia singela, que prefere caminhar, olhar a vida, saltitar. Poesia divertida, que faz os lábios alheios exibirem sorrisos. Poesia triste, que transforma em conta gotas os olhos. Gotas de aprendizado, de esforço, de conforto. Porque poesias especiais são assim, marcam o coração e enchem a alma! Feliz natal minha poesia especial! ”

Assim como pessoas, as poesias são de vários tipos. Existem poesias longas, poesias métricas, românticas, feias, desajeitadas, com rima, sem lógica, cômicas entre tantas outras características que seguimos encontrando por aí. Mas, a poesia da qual ela falava, era diferente. Era uma poesia especial, destas que não se encontram sempre. São raras e do tipo que nem todos conseguem entender ou alcançar sua profundidade. Poesias que tocam a alma como um caminhar de mãos dadas, como molhar os pés na beira da praia, como um sorriso de criança, como ganhar colo, como abraço apertado, como sorvete num dia de sol, como o olhar amigo, como beijo roubado, como o amor.
E assim, ela segue a vida encontrando pessoas, poesias sendo escritas a cada segundo, e o bom leitor sabe apreciar cada detalhe deste ser formado de palavras e estruturado em papel vivente.
Quisera ela, ter enxergado todas as poesias especiais que encontrou, e tê-las lido com a profundidade e a paixão que mereciam.

Ela nunca recebeu uma resposta da mensagem enviada. Não sabe se foi lida. Às vezes, ainda se pega imaginando como teria reagido o destinatário, e porque não teria respondido. Mas agora, isso não importa muito. Ela aprendeu a ler as poesias que aparecem em sua vida, porque, para ela, pessoas são poesias.

24 de agosto de 2015

NO TOPO DO FUNDO

NO TOPO DO FUNDO

Era manhã de sábado e Paco se preparava para uma viagem de escalada. Todos os equipamentos ajeitados na mochila, poucos itens pessoais, já que voltariam no dia seguinte. “A mochila nem ficou tão cheia”, pensou ele. A barraca e saco de dormir bem compactos para colocar no carro que passaria para pegá-lo em alguns minutos. Já estava abrindo a porta para sair, quando se lembrou de pegar um agasalho para a noite fria. Junto com o agasalho, aproveitou e pegou uma garrafa de conhaque que completaria exatamente o espaço que sobrara na mochila. Não era costume levar esse tipo de bebida para essas viagens, mas o frio justificava a opção. E, afinal de contas, ninguém seria obrigado a beber.

A viagem começou e todos estavam muito empolgados com a programação. Chegariam no fim da tarde ao ponto de início da subida. Dormiriam e subiriam no dia seguinte. Alguns se conheciam de outras escaladas e outros eram caras novas no grupo. Havia um grande entusiasmo, pois encontrariam um jovem alpinista bastante conhecido por seus feitos e escaladas arriscadas. 

Paco era conhecido por sua simpatia e carisma. Sempre tinha uma boa história pra contar e envolvia as pessoas com isso. O que os outros não sabiam, e talvez, nem o próprio Paco tivesse completa consciência, é que ele possuía instintos de morte. Algumas vezes tinha sonhos nos quais matava pessoas, mas nunca havia feito nem pensado em cometer tal ato. 

Fim da tarde e um maravilhoso por do sol se mostrava entre as montanhas do lugar. As barracas já estavam montadas em círculo. Uma fogueira estava pronta para ser acessa no centro do acampamento. As pessoas começavam a bater papo e comerem, quando, finalmente, conheceram o tão famoso e destemido jovem. Um rapaz de vinte e poucos anos, longilíneo e um tanto quanto convencido, cujo apelido era Cabrito. Algumas vezes era possível vê-lo se gabando disfarçadamente de seus feitos. Ele havia chegado alguns dias antes e já havia feito a subida umas duas vezes para conhecer o percurso, pois seu objetivo era realizar um free solo, um tipo de escalada feita sozinho e sem equipamentos de segurança, somente o homem e a rocha. 

Após o jantar, sentaram-se em roda e conversavam sobre a escalada do dia seguinte. A noite estava gelada e, ao ouvir a primeira referência sobre o frio, Paco comentou como seria legal ter um conhaque para esquentar. Todos concordaram com sua afirmação acenando que era realmente uma boa ideia se aquecer um pouco, visto que o papo estava tão bom. A lua cheia deixava a noite bastante clara. A garrafa de conhaque reluziu ao ser exibida por Paco, ao que todos o receberam com um grande sorriso no rosto dizendo: “este é o cara”. 

Todos estavam alegres e aquecidos com a bebida. Escutavam de Cabrito as incríveis narrativas de suas escaladas. Paco perguntou se alguém já havia realizado o free solo na montanha em que iriam escalar. Cabrito, meio constrangido por não ser o primeiro a fazê-lo, disse que sim, que outros escaladores já haviam subido, ao que Paco emendou outra pergunta: “E à noite, alguém já fez”? 

Os olhos de Cabrito brilharam refletindo as chamas da fogueira. Um desafio havia sido lançado, o reconhecimento que teria ao ser o primeiro a enfrentar o desafio a noite lhe arrebatou a mente. Não via outra coisa senão a imagem de sua silhueta contra a lua no topo, exibida na capa de uma revista. Tomou mais um gole de conhaque, levantou-se e disse: “Eu vou subir agora.” O sentimento na roda foi de empolgação, receio, euforia. Colocaram-se de pé e bradavam gritos incentivadores: “vai lá, manda ver, que coragem!” Duas pessoas, ainda sentadas, temiam pelo risco, mas, devido a empolgação geral, mantiveram-se quietas. 

Ao pé da rocha, todos dançavam e rodavam suas lanternas ao som de uma música do Van Halen. Cabrito calçou as sapatilhas, pegou seu saco de magnésio e começou a subida. A galera gritava e agitava enquanto ele começava a desaparecer pelas sombrias curvas da escalada. 

A galera curtia o momento até que um forte barulho anunciou a queda de Cabrito. Sua vida escorria como o sangue que molhava a pedra onde sua cabeça havia mirado. Um tiro tão perfeito que era impossível errar. 

E assim, Paco fez sua primeira vítima, um projétil humano contra um alvo de pedra, sem vestígios, sem provas e, principalmente, sem acusação. Um encontro marcante entre um homicida e um suicida. Afinal, qual o problema em dar um empurrãozinho em quem está no topo do prédio querendo pular?

1 de julho de 2015

A BORBOLETA E O BESOURO

A BORBOLETA E O BESOURO

O sol acabara de nascer. Ele andava lentamente pelo gramado, quando viu duas borboletas conversando. Aproximou-se e lhes disse: “bom dia borboletas”. As duas, educadamente, responderam com sorrisos cativantes e um tom suave de voz: “bom dia besouro”. Conversaram um pouco sobre as coisas do dia e se despediram. No final da tarde, coincidentemente, reencontrou uma das borboletas em um galho, e começaram a conversar de suas andanças pelo mundo. Jardins que haviam visitado, lagos cristalinos, insetos interessantes que haviam conhecido e comidas que haviam provado. Marcaram de continuar aquele papo mais tarde.

A noite estava tão legal, que acabaram indo dançar na “Inseto Night Club”. Dançavam divertidamente entre todos que lá estavam, até que as antenas se tocaram. Com olhares perplexos, os outros insetos pensavam: “como assim? O besouro está se antenando à borboleta”. Sem se importarem com os outros, deixaram-se levar pelo encanto da noite, pela lua e pela companhia agradável que tinham. 

Os encontros foram acontecendo. O besouro se encantava com aquela criatura dócil e linda, a cada dia que passavam juntos. Suas asas desfilavam cores diversas que se alteravam conforme o sol as iluminava. Eram asas únicas, marcadas por pintinhas que davam um charme especial àquela borboleta. O besouro a reconhecia de longe quando ela vinha voando lentamente pelo ar. A borboleta, por sua vez, admirava o besouro pela força e coragem que ele demonstrava. Sua carapaça, lustrada de um negro opaco, tinha algo diferente que não a deixava desviar os olhos dele. 

Quando saíam para passear, as coisas ficavam um pouco complicadas. Se resolviam ir voando, a borboleta, com toda graciosidade, batia suas asas. O desajeitado do besouro nunca conseguia acompanhá-la. Dava mil piruetas, caía várias vezes no caminho, além de fazer um barulho perturbador. Se resolviam ir andando, a borboleta se cansava muito rapidamente de todo o esforço. O besouro, por sua vez, ia parando para esperá-la no caminho. Resolveram então uma forma mais prática para os dois. A borboleta pousava sobre o casco do besouro que a levava tranquilamente. Assim, passaram a seguir juntos. A borboleta e o besouro, quando queriam, podiam sair para voar sozinhos. Afinal, eles continuavam gostando, cada um, de ser o que eram e de poderem voar como lhes era natural.

Um dia, quando passeavam juntos por um jardim florido, o besouro sentiu algo no seu casco, como se estivesse sendo sugado. Reclamou do que sentia. A borboleta disse, carinhosamente, que, sempre que ela estava em seu casco, desenrolava sua língua e acariciava suas costas com beijinhos. Ele, desconfiado daquilo, sacudiu-se, fazendo com que a borboleta, assustada, voasse para longe. Por diversas vezes, ela voltou para conversarem e caminharem juntos. Mas, sempre que ela pousava em seu casco, ele se sacudia e a espantava.

Cansada de ser enxotada, ela resolveu não voltar mais e, voando, foi conhecendo novos lugares, seguindo por onde o vento a levava. O besouro, agora só, segue seu caminhar lento e, às vezes, alça seu vôo barulhento. Não entende ainda o que acontecia quando a borboleta, sobre ele, passeava. Afinal, quem desenvolveu aquele casco resistente, não consegue perceber bem a diferença entre ser sugado e ser beijado. Mas uma verdade o besouro sabe: borboletas como aquela são criaturas especiais e extremamente raras de se encontrar.

27 de junho de 2015

CONTO PARA NÃO DORMIR

CONTO PARA NÃO DORMIR

O despertador urrava quando ela acordou no meio da noite, embriagada pelo sono. Parecia que havia levado uma pancada na cabeça. No quarto escuro, tentou reconhecer algo familiar, mas não viu nada que acalentasse a ansiedade do momento. Olhou para todos os lados e parou, ao ver um relógio com números vermelhos marcando 32:00. Apertou os olhos para melhorar o foco e, então, eram 32:01. A confusão aumentou e não sabia o que estava acontecendo. Não se lembrava de nada a não ser do seu próprio nome. Tentou se acalmar e abriu as cortinas para que a luz da rua pudesse iluminar o quarto. Era um ambiente de cores claras, muito bem decorado e aconchegante, o que trouxe um pouco de paz. Olhando pela janela, via poucos carros cruzando sinais vermelhos, enquanto um bêbado cantava algo, cambaleando pela calçada. Não reconheceu a rua que via do alto.

Respirou fundo e, sentindo o frio da noite, sentou-se na cama, cobrindo o corpo e se encolhendo. Começou a procurar por lembranças, quaisquer que fossem. Uma menininha linda, que brincava alegre em um gramado verde, apareceu em sua mente. Uma sala de aula cheia de colegas fazendo bagunça, o primeiro amor de sua vida, danças, músicas, o primeiro beijo, a faculdade e amigos em festas, viagens. Calmamente, as imagens vinham e rodeavam sua cabeça. A paz das lembranças iniciais foram suficientes para ninar seu corpo até cair no sono.

Se revirava na cama e balbuciava algo. Um pesadelo terrível, com torturas emocionais entre momentos de suspense, rodava sua cabeça. Pessoas com olhares perseguidores se destacavam em uma multidão que caminhava toda na mesma direção. Tentava ir para um lado diferente, mas os do seu entorno, com sorrisos, a conduziam na direção da multidão. Era quase impossível não seguir o fluxo. Recebia, ora empurrões, ora abraços, todos a guiando para onde ela não sabia ir. Cansada de tentar sair daquele lugar, seguia por si mesma junto a multidão. Um barulho ensurdecedor soou e, neste momento, todos começaram a agarrá-la, enquanto ela tentava se livrar deles e tapar os ouvidos. Fechou os olhos e gritou desesperada, querendo sair daquele lugar.

Muito agitada, abriu seus olhos perplexa e se viu novamente no quarto. O despertador, desta vez, tocava uma música. O relógio marcava 35:11, mas o dia amanhecia e o sol iluminava o quarto.

DESPERTAR

DESPERTAR

Certo dia, um homem andando pelo campo, encontrou uma pedra diferente. Era uma pedra linda, com traços tão peculiares que ele não pôde se conter e abaixou para examiná-la melhor. Ao se aproximar, pôde perceber, no seu contorno, brilho e ângulos; uma perfeição tal, que parecia dar vida à pedra. Não hesitando um segundo, ele a tomou em suas mãos, levando-a para casa.

Lá, a pedra foi lavada e, cuidadosamente, limpa. Suas nuances de beleza foram ainda mais expostas e agora, além de viva, a pedra parecia feliz. Foi colocada em uma mesa na sala da casa e podia ser apreciada pelos que ali passavam. Mas de todos, o mais encantado, era o próprio dono.
Ficou ali deixada e, aos poucos, foi sendo esquecida, empoeirada. Já não parecia assim tão viva. Nem seu descobridor lhe dava mais atenção.

Então, um dia, ao entrar em casa, o homem viu, espantosamente, a pedra flutuando no ar. Não pôde acreditar nos seus olhos, mas, mesmo assim, correu para fechar as janelas, com medo de perder seu objeto maravilhoso em um vento mais forte que pusesse levá-la. Quando se virou de volta, lá estava a pedra em seu lugar de costume, parada e definhando. Não entendendo muito bem o que havia ocorrido, tratou de deixar sempre as janelas fechadas para não perder seu troféu. Os dias se passavam e a pedra, novamente esquecida, já parecia quase morta.

Uma noite, distraído e andando descalço pela sala, o homem sente uma pontada no pé e, ao levar a mão para ver o que era, sente o jorrar quente do sangue em seus dedos, denunciando um corte profundo. A dor foi intensa e o sangramento caudaloso. O chão estava repleto de cacos de vidro. Havia um rombo na janela da sala. Assustado com o que acontecia, passando os olhos de relance, percebeu que a pedra não estava mais sobre a mesa. Ela havia voado através da janela para a liberdade que nunca lhe deveria ter sido tirada. Porque pedras, por mais que sejam pedras, voam quando querem voar. Voa pedra, encontra novamente a vida e a felicidade que te pertencem.